Enquanto a Europa Fecha Portas, Madri Mantém Curso Humanitário sobre Migração

O debate sobre migração voltou ao centro da política europeia, mas com um tom drasticamente diferente do de anos anteriores. A retórica da solidariedade e do acolhimento vem sendo substituída, em quase todos os países da União Europeia, por políticas mais duras e restritivas. Neste cenário de endurecimento coletivo, a Espanha de Pedro Sánchez opta por seguir um caminho distinto — e cada vez mais solitário.



A mudança de postura é evidente em todo o continente. Alemanha, Dinamarca, Grécia, Portugal e principalmente a Itália estão reconfigurando suas políticas migratórias com foco no controle mais rígido das fronteiras, deportações aceleradas e limitação de direitos para solicitantes de asilo. A proposta italiana de criar campos de triagem em países terceiros, como a Albânia, que inicialmente gerou controvérsia, já conta com o apoio de mais de uma dezena de Estados-membros, sinalizando um consenso crescente em torno de soluções extraterritoriais para conter os fluxos migratórios.

Mesmo países tradicionalmente mais receptivos, como Portugal, agora adotam medidas alinhadas com o discurso de partidos populistas ou conservadores. Com apoio da extrema-direita, o governo português criou recentemente uma unidade policial dedicada exclusivamente à deportação. A Dinamarca, por sua vez, defende abertamente a revisão da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, com o objetivo de facilitar a expulsão de migrantes condenados por crimes.

Enquanto isso, a Espanha caminha na contramão. Só em maio de 2024, o país recebeu mais de 12 mil pedidos de asilo — mais que qualquer outro Estado da UE. As Ilhas Canárias, ponto de entrada pelo Atlântico, registraram um número recorde de chegadas, com quase 47 mil desembarques em um único ano, algo não visto desde 2009. Mesmo diante desses números expressivos e da pressão interna, o governo espanhol mantém uma postura firme em favor da política humanitária, resistindo a apelos por maior rigidez.

Analistas explicam essa guinada conservadora em nível europeu não apenas pela sobrecarga dos sistemas de acolhimento, mas também pela mudança do humor popular. A frustração com os modelos de integração, o medo da insegurança e o avanço de partidos com discurso anti-imigração têm forçado até os governos mais moderados a endurecerem suas posições. Como ressalta um estudo do The Political Room, "o fracasso percebido das políticas de integração e o avanço da retórica xenófoba empurraram o centro político para a direita".

A Comissão Europeia, por sua vez, trabalha na implementação de um novo pacto migratório previsto para 2026. No entanto, já se fala na necessidade de reformulações antes mesmo de sua entrada em vigor, dado o crescente apelo dos Estados por mais autonomia nas decisões sobre acolhimento e deportações. Neste contexto, a Espanha começa a parecer cada vez mais deslocada, mesmo entre governos social-democratas que, como o da Alemanha antes da sua dissolução, têm se distanciado da abordagem aberta de Madri.

Apesar da queda geral no número de entradas irregulares no continente, a narrativa dominante é de contenção e fechamento. A decisão espanhola de manter uma política de acolhimento pode ser interpretada tanto como um gesto ético corajoso quanto como uma vulnerabilidade política, em um continente que se fecha. Em tempos de transição e incertezas, a Espanha parece apostar na memória recente de uma Europa mais solidária — mas resta saber por quanto tempo conseguirá sustentar essa posição sem apoio dos seus pares.






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